Escrita de Visão de Mercado com John Fallon

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Diretamente de Montreal no Canadá, o norte-americano John Fallon estreia uma nova categoria aqui no meu blog: entrevistas com profissionais que já atuam no mercado. Ele é roteirista, diretor de cinema, ator e diretor executivo na Bruise Productions Inc. Trazendo várias dicas e conhecimento, John Fallon dá alguns conselhos importantes para alavancar sua carreira de roteirista com uma ótima visão profissional do negócio.

MENEGATTI: Você é ator, roteirista, diretor e executivo. Como tudo começou? Conte-me sua história!

JF: Tive uma educação rígida; os filmes me salvaram. Quando cheguei precocemente a uma encruzilhada da vida, eu finalmente escolhi o cinema. Primeiramente cursei cinema por dois anos e depois atuação por três anos. Quando entrei no mercado, comecei a trabalhar para as produtoras locais e depois que me formei comecei a escrever meus próprios roteiros e em seguida fui contratado para escrever para os outros. Finalmente eu tive de aprender (e ainda estou aprendendo) a produzir conforme a demanda, e agora finalmente achei meu Santo Graal, dirigi meu primeiro longa-metragem: “The Shelter”, que será lançado neste ano na América do Norte, através da distribuidora Uncork’d. No momento também estou aprendendo sobre o processo de edição de filmes, escrevendo um novo roteiro enquanto tento alavancar meu próximo projeto. Quanto mais você sabe, menos precisa depender dos outros para fazer por você…

Confira o trailer de “The Shelter” aqui: (https://www.youtube.com/watch?v=Ed-AMOYuvRo)

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Cartaz de “The Shelter”: filme de John Fallon

MENEGATTI: Como profissional você tem diversos pontos de vista. Conte-me sobre o roteiro que lhe cativa como ator, como diretor e como executivo.

JF: O ator em mim é atraído por papéis que tenham profundidade (a possibilidade de um estudo de personagem complexo), papéis que serão muito divertidos de fazer (como em filmes de ação) ou tudo isso ao mesmo tempo! O diretor em mim é atraído por roteiros que estão em sintonia com aquilo que tenho afinidade (o lado obscuro das coisas, ação: um cara com uma espada é sempre algo muito bom), enquanto produtor, bem, sempre dou preferência para os roteiros que possam ser feitos a um preço financeiramente/comercialmente viável.

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John Fallon, o ator, no filme American Muscle

MENEGATTI: Essa pergunta é de um leitor do blog. Você sendo um diretor de cinema, quando lê um roteiro cheio de direções de câmera (esse tipo de linguagem técnica), como você encara isso? Alguém querendo fazer seu trabalho? Sem problema, são apenas sugestões amigáveis?

JF: Nunca me deparei com esse tipo de coisa. Os roteiros com os quais já trabalhei ou foram escritos por mim ou foram encomendados de outros roteiristas profissionais. Em minha opinião, se você não vai dirigir o filme, não deve escrever direções de câmera que vão além de um “Angle on” aqui ou um “Close on” ali. Eu pessoalmente odiaria ler um roteiro cheio de indicações de câmera feitas por um escritor quando na verdade quem vai dirigir o filme sou eu. Você deve se lembrar de que seu roteiro está competindo com inúmeros outros; ou seja, precisa ser uma leitura fácil. Não dê motivos para que dispensem seu roteiro logo na página 1 porque ele está repleto de pretensiosas direções de câmera.

MENEGATTI: Como roteirista, qual é seu processo de escrita? Você trabalha com algum método?

JF: Primeiramente começo com minha premissa inicial e então encontro um fim para minha estória. É difícil chegar a algum lugar se você não sabe para onde está indo. Saber com antecedência o final da estória é fundamental para mim.  Geralmente costumo a pensar bastante sobre a estória, por um bom tempo, tomo algumas notas/ideias que surgem em todos os lugares, até os mais estranhos (como no chuveiro), descubro o meio da estória (sempre a parte mais difícil), até que finalmente sento, tomo um copo de vinho e começo o primeiro tratamento. Uma vez que começo, nada mais na minha vida importa, eu sou todo do roteiro. Quando o primeiro tratamento foi feito, eu me afasto dele por uma semana. Depois volto, para um segundo tratamento, com outros olhos, com a mente livre. Então, eu envio meu segundo tratamento para as pessoas as quais confio, e assim, obtenho alguns feedbacks e com isso eu começo o terceiro tratamento e último. Claro que isso acontece se eu estiver escrevendo um spec. Se estiver escrevendo para outra pessoa, o processo é geralmente mais complicado, porque isso significa que estarei recebendo feedbacks e notas de várias fontes externas e preciso tentar agradar muitas pessoas ao mesmo tempo ao invés de mim mesmo. E sempre há exceções… Levou 3 anos para acabar The Shelter… Há uma primeira vez pra tudo.

MENEGATTI: Que tipo de estória você prefere? O que geralmente você costuma escrever?

JF: Tendo a sobrevoar por estórias sombrias, ação, o desagradável, o experimental que usa do imaginário para contar sua estória, ou misturas de gêneros como Sci-Fi/Horror ou Period/Action. Meus protagonistas geralmente estão ferrados (amo anti-heróis), as circunstâncias são na maioria das vezes graves, gosto de coisas assim, o lado sombrio, o fora da linha (a menos que seja contratado para escrever algo leve, claro). Quando vou ao cinema o que sempre me atrai são estórias sombrias ou sobre bravura, assim sendo, faz sentido que eu goste de escrever esse tipo de coisa também.

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John Fallon em set

MENEGATTI: Qual é a coisa mais importante que você tem a dizer para alguém que quer ser um bom roteirista?

JF: Aprenda direito a estrutura básica do negócio, e não escreva um livro, escreva um roteiro. Algumas pessoas tendem a escrever como se estivessem produzindo uma obra literária, principalmente quando se trata de descrições, o que pode afastar potenciais compradores/investidores/diretores e etc. Eles leem MUITOS roteiros. Eu sempre digo que um roteiro é um guia para fazer um filme, muita coisa vai mudar na pré-produção, na produção e na pós-produção. Portanto, se concentre mais em dar conteúdo a seus personagens e ter bons diálogos do que pegar pesado com descrições e esse tipo de coisa. Enfim, se você estiver escrevendo para uma produção de baixo orçamento, quanto menos locações (deslocamento realmente gera bastante custo) e quanto menos personagens você tiver (atores para pagar), melhor será. Se eu puder, gostaria de fazer uma observação sobre escrever já pensando na produção. Nesse exato momento, os dois filmes que estou tentanto produzir têm orçamentos de mais de 1 milhão de dólares. Percebi que precisava de algo menor. Então estou escrevendo um novo roteiro, chamado EVA, um roteiro que pode ser produzido com 200-300.000$, o que atualmente é um modelo de produção popular. Toquei nesse assunto para dizer que sempre é bom ter no bolso roteiros com faixas de orçamentos variados.

MENEGATTI: Você lê e ou produz roteiros de outros roteiristas quando assume o papel do diretor ou produtor executivo?

JF: Eu comecei produzindo apenas meus próprios roteiros. Mas como a vida ficou muito cheia e meu tempo diminuiu consideravelmente para me desligar do mundo e escrever, inclinei-me às encomendas de roteiros, mais e mais. Meu próximo filme, “The Prize” foi escrito por Karim Chériguène. Ele fez um pitch da estória para mim e eu a adorei, sendo assim, encomendei o roteiro. E a estória do filme The Shadowing era algo que eu tinha em mente, há bastante tempo, mas não consegui encontrar tempo para escrever sozinho, e então contratei outro roteirista, Jason Hewlett (que agora está trabalhando em outro roteiro para mim) para escrever o primeiro tratamento e depois trabalharmos juntos. Percebi que muitas vezes escrever com outra pessoa tem lá suas vantagens. Muitas vezes outro roteirista na mesa pensa em coisas que eu jamais pensaria.

MENEGATTI: Você tem algum roteiro que gostaria de indicar, ou acha importante que um roteirista leia?

JF: Eu leria “The Hitcher” de Eric Red (esse roteiro me fez querer escrever), por conta dos diálogos econômicos e o ritmo progressivo, assim como Caçadores da Arca Perdida de Lawrence Kasdan, para aprender a como escrever ação.

Você pode ler o roteiro de Eric Red. Versão em PDF aqui: (http://www.dailyscript.com/scripts/TheHitcher.pdf)

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Primeira página do filme “The Hitcher”

MENEGATTI: Você tem algum canal para receber roteiros?

JF: Posso dar uma olhada através do meu blog  www.john-fallon.com ou pelo john.h.fallon@gmail.com

MENEGATTI: Quais são os pontos principais em um roteiro que leva você a produzi-lo ou não produzi-lo?

JF: Tirar um filme do papel é algo muito custoso, com muito consumo de tempo. Ninguém lhe paga 1 centavo para desenvolver um filme quando a produtora é sua. Isso significa muito trabalho e pode levar muito tempo. Portanto, quando vou investir anos de minha vida tentando fazer um filme acontecer – tenho que me apegar a ele em um nível emocional , tanto quanto em nível comercial. Eu tenho que amar essa merda. E “preferencialmente”, tudo deve estar nas mãos de pessoas que confio. Eu tenho de estar “mergulhado” nisso! É a situação que vivo atualmente.

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John Fallon, o diretor e o produtor executivo

MENEGATTI: Alguns leitores querem saber se você geralmente recebe roteiros através de agentes para analisar ou se você os procura por outros meios, como em sites iguais ao The Black List (blcklst.com).

JF: Ainda não. Os roteiros alheios que caem na minha mesa chegam por conta de algum tipo de relacionamento pessoal. Ou eu já conhecia a pessoa ou é de uma pessoa que conhece a pessoa que eu conheço. Eu prefiro desse jeito para ser sincero. É mais pessoal.

MENEGATTI: Certo, John, agora outra pergunta de um leitor, para finalizar a entrevista. O que você prefere – uma boa estória ou uma estória tecnicamente bem desenvolvida? Obrigado!

JF: De preferência as duas. Mas você pode transformar um roteiro tecnicamente falho, mas com uma boa estória, em algo palpável. Não se pode fazer o contrário.

Dê uma olhada no trailer de American Muscle: (https://www.youtube.com/watch?v=DZzUnQARY94)

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John Fallon no filme American Muscle

 

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