Escrever e Produzir Horror no Brasil com Marco Dutra

Mais uma entrevista, e dessa vez tive o prazer de conversar com Marco Dutra, diretor e roteirista paulistano que vem se destacando no mercado cinematográfico.

Marco Dutra é um diretor de cinema, escritor, editor e compositor. Formou-se na Escola de Cinema da Universidade de São Paulo e faz parte do grupo de produção Filmes do Caixote. Seu primeiro longa-metragem, Trabalhar Cansa, produzido em parceira com Juliana Rojas, estreou no Festival de Cannes 2011 (Un Certain Regard) e passou a ganhar inúmeros prêmios em todo o mundo. Seu roteiro foi um dos finalistas do Sundance / NHK Award. Seus curtas, O Lençol Branco e Um Ramo foram ambos selecionados para o Festival de Cinema de Cannes. Um Ramo foi premiado lá como Melhor Curta-Metragem na Semana da Crítica. O horror, Quando Era Era Vivo, protagonizado por Sandy Leah, Antônio Fagundes e Marat Descartes, foi seu segundo longa, e agora, recentemente lançou seu terceiro longa, Era el Cielo, filmado no Uruguai e protagonizado por Carolina Dieckmann. Marco também desenvolveu trabalhos como roteirista para filmes como No Meu Lugar de 2009, de Eduardo Valente, e para a série de TV Alice do ano de 2009, exibida pelo canal fechado HBO Brasil.

Atualmente Marco trabalha na pré-produção de Good Manners (As Boas Maneiras), um horror Conto de fadas co-produzido com a França a ser lançado em 2017. Marco também trabalhou como escritor para diretores como Karim Aïnouz, Cao Hamburger, Sérgio Machado, Paulo Morelli e Dennison Ramalho.

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Marco Dutra

MENEGATTI: Olá, Marco, tudo bem? Eu gostaria de primeiramente saber como você começou, o que te motivou a fazer o que faz. Me conta um pouco sobre a tua trajetória.

MD: Meus pais tinham uma câmera super 8 desde que nasci (em 1980) e depois uma câmera VHS. Sempre convivi com ambas e aprendi cedo a usá-las e brincava de fazer pequenos filmes de gênero com meus irmãos. Além disso, via filmes desde muito cedo (em casa e no cinema), também animado pelos meus pais. Meu amor pelos filmes era enorme e muito evidente – para não dizer obsessivo. Em 1997, conversando com um amigo de colégio (Eliézio Aguiar, que continua meu amigo e hoje é médico), me pareceu claro que eu deveria prestar cinema no vestibular. Acabei cursando a ECA-USP, onde conheci Juliana Rojas, Caetano Gotardo, Daniel Turini e vários outros amigos que seguem até hoje parceiros de trabalho.

MENEGATTI: O que lhe atrai no gênero horror? Quando você soube que queria escrever um filme de horror?

MD: O que me atraiu desde cedo no cinema foi a potência dos filmes fantásticos. Branca de Neve e A Bela Adormecida (do Disney) eram grandes destaques e eu os via repetidamente. Lá estava o musical, o fantástico, e também o horror. A Bela Adormecida é uma das inspirações para meu novo filme com Juliana Rojas, As Boas Maneiras. A Bela Adormecida é um filme que eu ainda vejo repetidamente, todo ano. Ainda me fascina. Começou assim meu interesse pelo gênero, mas é claro que depois foram aparecendo Wes Craven, Lucio Fulci, Romero, John Carpenter, Hitchcock, Mojica… É um universo infinito e muito rico, do qual eu sabia que queria fazer parte, ou ao menos tentar.

MENEGATTI: Como você entrou na indústria do cinema?

MD: Meu curta de graduação com Juliana Rojas, O Lençol Branco, foi selecionado para Cannes e começamos a conhecer o mundo dos festivais e da circulação de filmes internacionalmente nessa época. Depois da ECA, trabalhei com a Companhia do Latão de teatro por um tempo, no núcleo de pesquisa Audiovisual. Foi uma continuação do meu aprendizado. Eu e Juliana fizemos um segundo curta, chamado Um Ramo, que também circulou um bocado. Nosso primeiro longa juntos, Trabalhar Cansa, abriu portas para que pudéssemos seguir fazendo filmes até hoje.

MENEGATTI: Quais filmes ou autores que lhe influenciaram a ser um roteirista/diretor? O que você aprendeu com eles que lhe ajudou a se tornar quem você é hoje e aquilo você faz hoje?

MD: As primeiras paixões, como eu disse, começaram na infância. Depois vieram outras, claro. Mas eu preciso mencionar Disney, Stephen King, Stephen Sondheim, Hitchcock e M. Night Shyamalan como alguns nomes que me fizeram querer viver essa vida que vivo hoje, a despeito de qualquer dificuldade e das minhas próprias limitações. Na época da faculdade, Walter Hugo Khouri e Wilson Barros foram artistas importantes para a minha formação. São pessoas que acreditam na narrativa e no poder das imagens (a ideia de mise-en-scene). Sondheim é músico, mas seu trabalho abrange também cinema e teatro e é apaixonante.

MENEGATTI: Quais são as cenas mais assustadoras que você já viu em um filme? Na sua opinião, o que fez elas funcionarem?

MD: A morte de Branca de Neve, a transformação de Pinóquio em burro, o final mítico de A Bruxa de Blair, o palhaço no bueiro em It. Em geral, as cenas que me perturbam são pouco explícitas e absurdas, como um pesadelo. A perturbação é mais importante do que a parte gráfica em cenas assim – por isso nunca me atraiu muito o gore, apesar de eu respeitar o gênero profundamente.

MENEGATTI: Não querendo tomar mais muito do seu tempo, para finalizar gostaria de saber, para você, qual é o principal desafio de escrever para o gênero horror/suspense?

MD: Acredito que o horror e o suspense precisem de muita precisão tanto na hora da escrita quanto na hora da filmagem e da montagem. Estamos buscando gerar efeitos em quem assiste, e esses efeitos só acontecem se a estrutura está bem desenhada. Tentei fazer isso em Trabalhar Cansa, Quando eu era vivo e O Silêncio do Céu, meus longas até aqui, e sigo nessa busca em As Boas Maneiras, que fiz com Juliana Rojas e que estou montando agora. A cada filme aprendo algo novo, e acho que a prática constante é fundamental para esse aprendizado. É preciso escrever sempre e filmar sempre para chegar a resultados melhores e melhores.

Se você se interessa em filmes de horror e principalmente em escrever eles, não deixe de ler o artigo Estrutura Narrativa das Histórias de Horror – só clicar no link abaixo:(https://fernandomenegatti.com/2016/11/13/estrutura-narrativa-das-historias-de-horror/)

 

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