Roteiro Literário X Roteiro Técnico

Há muito pouco tempo a maioria dos roteiros independentes ou escritos, por exemplo, dentro de grandes canais de televisão no Brasil, não seguiam uma norma “universal”, mas sim quase sempre um padrão estabelecido pela própria emissora ou pela produtora que o bancava. Isto fica explícito ao ler o roteiro  de Decamerão, A Comédia do Sexo – Episódio 1: Comer, Amar e Morrer, produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre para a Rede Globo.

Veja no link: (http://www.casacinepoa.com.br/sites/default/files/decam_rot1.txt)

Porém, hoje as coisas estão mudando, tanto no seguimento independente com a chegada de uma nova safra de roteiristas comprometidos a realizar trabalhos de excelência, assim como dentro das produtoras e canais de televisão. A Rede Globo, por exemplo, hoje parece estar adotando o modelo padrão norte-americano de escrita para suas produções, utilizando assim, o mais usado software de escrita da indústria audiovisual, o Final Draft. Sim, muitos amam e outros odeiam, mas o fato é que é o software mais usado e reconhecido no mercado, ok?

Entretanto, há uma enorme diferença entre o roteiro literário (feito para o leitor e para vender) do roteiro técnico – decupado pela direção. O segundo é feito pelo diretor do filme e geralmente pelo fotógrafo. Ambos se juntam, destrincham o roteiro literário criado pelo roteirista, e adicionam linguagem técnica – direções do que o ator deve fazer e posicionamentos de câmera  (coisas que nenhum leitor leigo entenderia; ou seja, um documento que não serve para ser vendido, pois ele já é o resultado de um roteiro que foi comprado).

Sendo assim, o roteiro literário nada tem a ver com a decupagem de um roteiro técnico. Muitos roteiristas, acostumados com a popularização da decupagem de direção e a forte fusão entre roteirista que também é diretor e diretor que também escreve, o que domina o cinema independente, acreditam que o roteiro precisa ser extremamente técnico, com um texto que apenas mostra e se faz ouvir. Sim, o roteiro literário é ocupado pelo audível e visual, mas também por linguagem literária, e é por isso que se chama de roteiro literário. É muito comum encontrar em roteiros literários norte-americanos, como no piloto de The Walking Dead, coisas do tipo:

red

Ela está morta.

Não doente. Nem vestida para o Halloween. Morta.

Logo admito que não leio muitos roteiros em português, e os que li, possuíam uma linguagem não muito atrativa para um leitor justamente por conta da “escrita a facão”, tudo muito curto e grosso. Contudo, resolvi compartilhar uma experiência de estudo de roteiro para fins acadêmicos que venho desenvolvendo. Minha proposta é a pesquisa sobre um roteiro cinematográfico, escrito em português, de gênero e de grande sucesso. Indiscutivelmente logo abracei o filme Tropa de Elite II – O Inimigo Agora é Outro, que se tornou a maior bilheteria da história do Brasil no dia 08 de dezembro de 2010, quando atingiu a marca de 10.736.995 espectadores após nove semanas de exibição, desbancando assim, na época, Avatar, de James Cameron. E ao ler o roteiro de Tropa de Elite II, eis que encontro coisas bem interessantes:

tropa-2

E que tal essa…

tropa-3

Não pode colocar nada que não seja visível ou audível, não é? Você está sumariamente enganado.

Há de se perceber que o roteiro literário tem por função contar uma boa história e não dirigir os atores ou dizer passo a passo sobre o que todo mundo deve fazer. O roteiro precisa se comprometer apenas com a história, sendo assim, ele está mais próximo de um livro de ficção do que de qualquer outra coisa. No entanto, os exemplos acima aparecem nos roteiros com certa moderação, e não o tempo todo. Eles servem para dar atmosfera à sua história, para tornar sua escrita mais atrativa – é o velho: pegar o leitor pela mão e levá-lo através da história.

tropa_de_elite_2

Apesar de o foco aqui ser a escrita do roteiro literário, acredito que se faz fundamental breves palavras sobre a estrutura do roteiro de Tropa de Elite II. O filme é intenso, isso você nota perfeitamente ao ler o roteiro, onde as cenas são costuradas, uma na outra, tudo faz sentido, e uma cena não existe sem a outra. Tudo está sempre no limite, um conflito atrás do outro. Inclusive, muitas descrições nas ações e diálogos nos trazem termos como: “bomba relógio prestes a explodir – barril de pólvora – jogar merda no ventilador”. É exatamente sobre isso que se trata o filme: uma roda, que não para de girar e só avança, colocando a história sempre para frente. Os personagens também avançam, constantemente, vivendo em épocas diferentes de suas vidas, envelhecendo a cada momento – um barril de pólvora, que mais cedo ou mais tarde vai explodir!

Infelizmente não posso deixar o roteiro de Tropa de Elite II aqui para leitura, pois como ele não está disponível na internet, precisei entrar em contato com a Zazen Produções, que juntamente com José Padilha, me autorizou a utilizar o roteiro na íntegra apenas para fins acadêmicos, mas espero que o assunto abordado lhe sirva de reflexão e inspiração para os próximos roteiros que você for escrever.

 

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